O Ensino de Engenharia Para o Século XXI


Descrição: Do Seminário "O Ensino da Engenharia para o Século XXI nos Países Amazônicos" organizado pela UNESCO e Unamaz.

Editora: Unamaz Belém

Ano: 1996

Pontos Marcantes: Evolução da engenharia no Brasil (3); mudança de modernidade para pós-modernidade (11); Exemplo japonês (22); Realidade do ensino da engenharia (24); Engenheiro do Futuro (33); O engenheiro (38); formação e informação (45).

Registro: 62:37 / E59



Apresentação

Este trabalho visa promover a formação de uma nova geração de engenheiros que enfrenta um grande obstáculo: o desequilíbrio entre a velocidade da produção de novos conhecimentos e a capacidade de introdução dos mesmos nos currículos e programas de apoio à graduação. Também tenciona reduzir a dependência econômica dos países amazônicos.


Situação Atual e Perspectivas do Ensino de Engenharia no Brasil (3)

Marcos Ximenes Ponte Doutor Eng. Mecânica ITA Reitor da UFPA

A engenharia teve seu grande crescimento no Brasil com o avanço ferroviário do final do século XIX, mas até a revolução de 30 as atividades técnicas eram tratadas com preconceito.

A construção do aparato formador do engenheiro no Brasil se deu em sua quase totalidade após a primeira década do século XX, numa fase de grande efervescência no campo científico e tecnológico e na expansão e internacionalização da economia. Até a primeira metade dos anos 40 desenvolveu-se uma indústria 'tradicional', mudando-se bastante de lá para cá.

Com o grande número de investimentos públicos em infra-estrutura dos anos 70, propiciou-se a formação de um grande acervo técnico da empresa nacional no setor da engenharia, sendo criada uma importante atmosfera de formação do engenheiro, mesmo fora da escola.

O Modelo Desenvolvido no País (8)

A economia foi internacionalizada na produção e o restante sofreu influência direta. Na década de 60 tentou-se importar o modelo americano de universidade, em vão dado um contexto social e econômico completamente diferente, principalmente devido a dependência já existente lá e ainda não aqui, principal gerador das deficiências na formação do engenheiro no Brasil.

O controle sobre o exercício profissional de engenharia é desligado das escolas no Brasil, dispensando-se maior controle sobre as escolas de menor qualidade, não evitando-se que profissionais sabidos, espertalhões usem indevidamente o título de engenheiro, falhando na oportunidade de forçar a busca do aluno por um maior conhecimento além dos créditos.

É importante reconhecermos hoje, a diferença existente entre um engenheiro formado nos anos 90 e um engenheiro formado a 30 ou 40 anos atrás. Os problemas de engenharia quase sempre apresentam um grande número de soluções possíveis. Antigamente, o profissional otimizava suas soluções com uma forte contribuição pessoal: a experiência que lhe dava uma noção de grandeza. Hoje exige-se muito mais do engenheiro quando formula e quando resolve os seus problemas, sendo a matemática um importante aspecto metodológico.

O que marcou a época moderna:

  1. Desenvolvimento da racionalidade e conhecimento científicos.
  2. Uso da racionalidade científica como fator essencial da produção desenvolvimento tecnológico.
  3. Crença do progresso da humanidade motivado pelo conhecimento científico.
  4. Valorização do saber científico cada vez mais especializado, seguindo a tendência de Adam Smith da decomposição da produção em tarefas simples.
  5. Otimismo com relação ao crescimento econômico e desvinculação do homem da natureza, seu objeto.

As tendências da nova época:

  1. O homem perdeu a arrogância, voltando a conviver com o mistério, buscando encarar a realidade numa visão de globalidade bio-física, sócio-política-econômica.
  2. As atividades industriais buscam a reunificação das tarefas em processos empresariais coerentes.
  3. Na mesma consciência de globalidade universal a concepção planetária dos problemas.
  4. A preeminência do conhecimento.
  5. A convicção de que devemos manter um novo relacionamento com a natureza a prudência ecológica.

Parece que há uma busca de um ideal tecnológico para um desenvolvimento humanizado, tentando reverte-se a decadência da civilização ocidental.

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Reengenheirando o Ensino de Engenharia no Brasil (15)

Ivan Rocha UnB

A educação brasileira, em especial na engenharia, tem enfrentado um duplo desafio: educar os cidadãos para conviver com um mundo em rápida evolução e formar profissionais para atender ao amplo e mutante espectro da demanda do mercado de trabalho. Ela é vista como uma condição sistêmica essencial para melhorar a competitividade da economia nacional e para viabilizar a evolução da sociedade.

Todo o sistema de ensino tem apresentado deficiências, sobretudo qualitativas, dificultando a evolução do conhecimento. Valoriza-se mais a retórica, a repetição acrítica das informações transmitidas pelos docentes, geralmente limitadas aos conteúdos dos livros, e menos para o desenvolvimento de habilidades que capacitem o educando a pensar e a resolver problemas reais. De um lado, o ensino teórico não tem sido desenvolvido como base de diálogo com a realidade. De outro, a prático profissional e a experimentação não têm sido aproveitadas para consolidá-lo.

Essa cultura dominante se reflete particularmente de forma negativa na formação do engenheiro que, não somente tem a missão de resolver problemas reais, mas depende da criatividade como uma habilidade essencial para o cumprimento de sua missão social. O ensino técnico sem uma base sólida no conhecimento científico resulta na rápida obsolescência profissional e na incapacidade de acompanhamento dos avanços tecnológicos.

No ambiente atual de competitividade, a capacidade de aprendizagem contínua revela-se como fator crucial de competitividade.

Com a intensificação do processo de industrialização no Brasil, surge a necessidade de uma crescente especialização das engenharias, mais orientadas para servir às grandes corporações, e menos para a criação e desenvolvimento de empreendimentos da base tecnológica. Com a crise econômica dos anos 80, a engenharia perdeu prestígio.

Cada vez mais, as engenharias precisam incorporar a linguagem da ciência com maior intensidade, pois a utilização de conhecimentos empíricos, ainda importantes, não será suficiente para acompanhar a evolução dessas novas tecnologias. O modelo japonês de apropriação de idéias não é mais suficiente para promover a capacitação tecnológica e a introdução de inovações. Infelizmente, os quadros e a infra-estrutura da maioria de instituições de ensino superior é insuficiente.

Há indicações que boa parte dos docentes qualificados (titulados) não consegue acompanhar a evolução dos seus campos de interesse acadêmico, especialmente nos setores mais dinâmicos que experimentam desenvolvimento tecnológico intenso.

Ensino de Engenharia Nos EUA (19)

Eles optaram pela produção em massa de diplomados, sendo que o Estado, a partir de 1945 passou a financiar a pesquisa de seu interesse. O sistema de avaliação acadêmica dos docentes e pesquisadores teve como base a capacidade de obtenção de financiamento e na produção acadêmica.

Com isso, dedicaram-se muito mais à produção do que ao ensino, situação muito invejada por outros países, mas que enfrenta sua maior crise, com reclamações de todo o tipo. A situação não é muito diferente no Brasil.

Ensino de Engenharia Na União Européia (20)

A habilidade profissional, em geral, é vinculada à obtenção de um título acadêmico. Na maioria dos países, há dois níveis de formação de engenheiros: orientação para a concepção, com formação mais longa e teórica; e orientação mais prática como engenheiro técnico (como os CEFET). A engenharia tem sido considerada como uma atividade essencial ao processo de construção da União Européia.

Ensino de Engenharia No Japão (22)

O sistema educacional japonês forma mais engenheiros que profissionais de outras categorias, também apropriando-se dos conhecimentos gerados em outros centros, fato cuja fragilidade já compreenderam na competitividade industrial.

Com a reforma educacional de 1989 (a terceira), a meta passou a ser o estímulo a criatividade dos estudantes e a torná-los mais críticos, superando a cultura da obediência e da aceitação acrítica do que lhes é ensinado, isto é, a ênfase se desloca para o desenvolvimento da capacidade de pensar e criar. O conceito dominante é o de educar os cidadãos enquanto seres humanos completos e criativos.

O aprendizado fundamenta-se na integração entre o fazer e o pensar, ao contrário da cultura educacional dominante no Brasil. Desde o início, os estudantes são estimulados a conceber e a desenvolver projetos criativos. Uma educação desenvolvida a partir do mundo real confere uma base sólida para o ensino da engenharia.

Os projetos de mestrado e doutorado em engenharia são majoritariamente desenvolvidos em unidade de P&D das empresas.

Um Novo Paradigma para o Ensino de Engenharia

Profissão (24)

Classicamente, o engenheiro é visto como um técnico especializado na solução de problemas específicos e limitados a determinadas atividades ou campos de interesse. Hoje, precisam ser vistos como profissionais polivalentes aptos a contribuir para a solução de uma grande diversidade de problemas humanos, trabalhando em equipe e em temas interdisciplinares que envolvem a cooperação com outras categorias.

Educação (25)

A abordagem tradicional baseia-se na premissa velada de acumulação de conhecimento sobre um mundo modelado de forma precisa. O conhecimento é transmitido pela apresentação sucessiva de "verdades científicas", procedimentos e métodos organizados por disciplina, recortando a realidade e o diálogo com esta de forma artificialmente parcial e limitada. A maioria das universidades brasileiras ainda não encontrou um caminho adequado para viabilizar um tratamento interdisciplinar e diáletico do conhecimento.

O ensino precisa ser ampliado para o desenvolvimento de habilidades polivalentes, tais como, capacidade de ouvir, persuadir, negociar, comprometer-se com a auto-aprendizagem, cooperar, responsabilizar-se, tornar-se honesto, ético e idôneo. Esse conjunto de conhecimentos é essencial para os engenheiros de agora e do futuro.

Universidade (25)

A universidade pública clássica encontra-se ameaçada pela concorrência, que deve atender melhor às necessidades da sociedade. O tratamento conferido aos alunos poderá ser personalizado, respeitando-se consideravelmente o número de indivíduos atendidos por programas presenciais em tempo parcial e em turmas menores.

Currículos (26)

É preciso manter processos permanentes de acompanhamento e avaliação do ensino para poder rever e adaptar os currículos, questionando sobre o que está faltando, o que é desnecessário, sobre o que ensinar e como fazê-lo.

Avaliação (26)

Ainda se fundamenta em testes de memorização que artificializam os critérios e procedimentos de avaliação profissional praticados na vida real, contribuindo para a redução da criatividade e da capacidade crítica. Este processo deveria, sim, servir como realimentação da aprendizagem, mediante envolvimento ativo em projetos reais e não pela observação passiva, indicando os aspectos que mereçam esforço adicional por parte de cada educando. Os estudantes precisam ser vistos como seres responsáveis e conscientes de que o principal interessado na aprendizagem é ele próprio. Cada vez mais, os indivíduos serão aceitos nos empregos pela sua capacidade de aprendizagem e menos pelo que dizem seus currículos.

Trabalho (27)

O entendimento do processo educativo se confunde com o conceito de trabalho, que tradicionalmente é otimizado pela redução dos seus passos e redução do tempo de execução, sendo supervisionado por supervisores e gerentes. Entretanto, uma nova concepção de trabalho está emergindo onde uma equipe desenvolve todos os passos necessários até o atendimento completo e satisfação do cliente.

Pesquisa (27)

As atividades de pesquisa começam a ser entendidas como uma forma de antecipação da CT que pode ser útil na construção de uma nova ordem econômica e social, isto é, a geração do conhecimento novo tem um propósito definido e não pelo simples prazer de aumentar o conhecimento. Esse entendimento premiará aqueles que se dedicam a estudar questões de relevância para as sociedades que os financiam e que tenham a capacidade de convencer os outros sobre a importância do que fazem.

Inovação (27)

Mudança nas práticas de uma comunidade para a consecução mais eficaz e não apenas eficiente de seus propósitos, isto é, o critério de adequação social passa a pesar na adoção de novas tecnologias. A compreensão das implicações sobre os ambientes social e natural das tecnologias passa a ser um domínio e uma condição especial para os engenheiros e para a prática de engenharia. A inovação passa a ser um fenômeno coletivo.

Reengenheirando o Ensino da Engenharia (28)

Uma estratégia combinada envolvendo ensino e pesquisa é recomendável para a reconstrução dos programas de graduação e pós-graduação em engenharia no Brasil:

Ampliação da pesquisa, com projetos interdisciplinares de relevância econômica e social em colaboração com grupos de outras áreas do conhecimento. Processo educativo onde o estudante amplie seus interesses para além dos problemas clássicos da engenharia, desenvolvendo sua capacidade de aprendizagem e de trabalho em um ambiente capaz de evolução e de auto-organização.

As atividades de pesquisa precisam ser integradas ao processo educativo, como uma forma de abordagem do desconhecido, capacitando o educando a resolver problemas novos e a desenvolver plenamente sua criatividade. Isto não tem passado da retórica de docentes e pesquisadores, na tentativa de justificar os recursos investidos.

O desperdício de tempo com discursos (aulas) teóricos, que sequer serão memorizados com alguma longevidade, precisam ser minimizados. Ênfase deve ser dada ao desenvolvimento de trabalhos em equipe.

A massificação do regime de tempo integral e dedicação exclusiva, em alguns departamentos universitários de engenharia, afastou a participação de engenheiros praticantes, formando gerações de docentes sem experiência.

Os docentes precisam ser mais comprometidos com a real aprendizagem de seus alunos, que não deve orientar-se para a mera elaboração e aplicação de provas desenhadas para desestimulá-los ou para conferir boas notas. Os estudantes precisam ser submetidos a situações controladas nas quais tenham que organizar-se para o aprendizado e para resolver problemas reais. Os docentes deveriam tratar cada estudante individualmente, respeitando seus ritmos de aprendizagem e estimulando-os a participar de atividades comunitárias para desenvolver um sentido de responsabilidade enquanto cidadãos.

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O Perfil do Engenheiro no Século XXI (33)

Francisco Luiz Danna Secretaria de Educação Média e Tecnologia MEC

Para apresentar diretrizes e orientações para a melhoria da formação e atuação do engenheiro, frente aos grandes desafios tecnológicos, sociais e econômicos que o País já enfrente e que aumentarão, foi elaborado em 1991 o documento "Perfil do Engenheiro do Século XXI". Pretende servir de referência ao planejamento do ensino e eventuais reformulações das habilitações e dos conteúdos didáticos dos cursos de Engenharia.

Questões Relevantes (33)

  1. Situação da Formação do Engenheiro no Brasil
  2. A maioria dos engenheiros sai das escolas com uma formação deficiente, principalmente nos aspectos práticos, pouco criativos e com deficiências específicas em conhecimentos gerenciais, administrativos, sociais e ambientais, e somente com uma razoável formação teórica

  3. Cenário da Atuação Profissional
  4. A densidade de engenheiros em países desenvolvidos é 4 a 5 vezes superior a nossa. Isso se explica pela predominância até recentemente, de indústrias tecnologicamente atrasadas, principalmente pela falta de competição e pelo modelo adotado de substituição de importações. Este quadro tende a reverter-se, o que irá exigir maior competência e eficácia do engenheiro para converter em aplicações práticas os resultados dos avanços científicos e tecnológicos.

  5. Cenário do Desenvolvimento Tecnológico
  6. Descortina-se uma competição cada vez mais acentuada na produção de bens e serviços, onde a competitividade, qualidade e o menor custo exigirão de países em desenvolvimento um esforço acentuado na formação adequada de recursos humanos.

    A globalização da economia e atuação em blocos implicará em uma nova concorrência global. As novas descobertas serão incorporadas com velocidades crescentes à produção de bens e serviços, acarretando uma interação maior das empresas com as instituições de ensino. A globalidade e interdisciplinaridade da engenharia deve intensificar-se.

  7. O novo perfil do Profissional de Engenharia
  8. Em função destes novos paradigmas, o engenheiro do futuro deve ter uma visão sistêmica de sua área de formação e de sua inter-relação com áreas correlatas, sob o ponto de vista tecnológico, social, econômico e ambiental, bem como as seguintes habilidades e posturas: criatividade, capacidade e hábito de pesquisar; senso crítico; atuação em equipe; capacidade de gerenciar e liderar pessoal e ética profissional. Para tanto, é necessário que o engenheiro tenha forte formação básica, capacidade de conceber e operar sistemas complexos, competência para usar recursos computacionais, softwares e estações de trabalho, além de pleno domínio sobre qualidade total, segurança do trabalho e preservação do meio ambiente, bem como compreensão de aspectos administrativos e legais.

    Deverão ser consolidados dois tipos de perfis para os engenheiros: de Concepção e de Execução (Engenheiro Industrial)

  9. Correlação entre Formação e Atribuições Profissionais

    A atribuição profissional deve ser função da competência profissional e não do diploma como ocorre hoje. O aspecto cartorial deve dar lugar à possibilidade de as atribuições profissionais serem ampliadas ou até diminuídas em função de aquisição ou perda de conhecimentos. Deve ser estimulada a melhoria do processo de formação, através da avaliação das instituições de ensino de Engenharia.

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O Conceito de Engenharia e Sua Correlação com o Ensino de Engenharia e a Profissão de Engenheiro: Breve Análise da Experiência Brasileira (37)

Ruy Carlos de Camargo Vieira Secretaria de Educação Média e Tecnologia MEC

Deixando de lado aspectos históricos, pode-se tentar definir a Engenharia a partir do inter-relacionamento entre a obtenção de conhecimentos e a sua aplicação com objetivos concretos, aspecto principal levado em consideração pela ABET (Accreditation Board for Engineering and Technology), na sua definição: "Engenharia é a aplicação criteriosa dos conhecimentos obtidos nos campos das ciências exatas, naturais, e humanas e sociais, através da teoria, da experimentação e da prática, no desenvolvimento de meios para a utilização econômica de recursos em benefício da humanidade".

O Ensino de Engenharia (38)

O ensino situa-se, portanto, na fase de aquisição de conhecimentos que serão aplicados criteriosamente na fase do exercício da profissão. No entanto, tendo em vista a rápida evolução tecnológica, o ensino não constitui uma etapa disposta cronologicamente de forma estanque com relação à etapa da aplicação desses conhecimentos.

A Profissão de Engenheiro (41)

O exercício profissional situa-se na fase da aplicação, destacando-se três elementos principais: os recursos que deverão ser utilizados (materiais, energéticos e humanos), sua forma de utilização e o benefícios visados.

O currículo mínimo em vigor no Brasil dá margem a grande grau de flexibilidade na composição dos currículo plenos.

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Desafios Para o Ensino de Engenharia na Amazônia (45)

Vicente de Paula Nogueira Fundação Universidade do Amazonas FUA

Os desafios podem ser classificados em três grandes grupos: desafios educacionais gerais, desafios relacionados a pobreza e subdesenvolvimento, desafios característicos da região.

Dentre os primeiros, inclui-se o importante equilíbrio e a determinação correta de prioridades entre formação e informação. É responsabilidade fundamental de um curso de engenharia a formação de uma personalidade capaz de adequadamente absorver, utilizar e produzir conhecimento técnico-científico. É insuficiente e inconveniente abarrotar a cabeça dos estudantes com informação apenas, com a experiência dos fatos passados ou com as soluções específicas dos fatos de hoje, o que gera no estudante a falsa impressão de que já existem em algum lugar soluções prontas e acabadas para os problemas que enfrentamos; basta encontrá-los e aplicá-los. Uma grave conseqüência é a supressão da criatividade e o estabelecimento de um comportamento passivo e subserviente. Tem-se a figura do "engenheiro de manual", despreparado para o enfrentamento de situações inéditas.

Somente com a formação é possível desenvolver a capacidade de pensar, principal arma do engenheiro. O mero adestramento em técnicas e processos assegura a obsolescência precoce do profissional. Na realidade, para o engenheiro adequadamante formado, as transformações tecnológicas devem representar a oportunidade de um correspondente crescimento de suas habilidades e competências, jamais o seu atraso. Além disso, seu desvio para tarefas subprofissionais constitui um desperdício muito oneroso para a sociedade.

Mas a informação também é importante, para ilustração e justificação dos conceitos fundamentais, como ferramenta do processo formativo.

Embora habilidades e atitudes levem mais tempo para serem aprendidas do que mera informação, são igualmente mais difíceis de se perder. Além do mais informações e conhecimentos técnicos especializados podem ficar obsoletos com o passar do tempo, entretanto, nem o passar do tempo, nem mesmo a troca de funções destruirão as habilidades genéricas referentes à solução de problemas ou a correta atitude frente às diversas situações de que a formação adequada pode incutir.

Há notáveis aspectos na formação intelectual do engenheiro que não são estritamente técnicos, mas que se configuram indispensáveis, devendo se estender bem além das ciências físicas e tecnológicas, pelos campos da comunicação e expressão, da economia, da sociologia, da administração e outros. Deve também estar ciente de suas responsabilidades éticas e de seus compromissos com a sociedade que lhe propiciou a oportunidade de sua formação.

Normalmente o engenheiro tem de trabalhar com pessoas das mais diversas formações, o que demanda habilidades bem mais amplas que as simples habilidades técnicas. É por isso que em muitas respeitadas instituições, como o MIT, quase 25% do tempo é reservado ao estudo das humanidades, ciências sociais e ambientais. Esse tempo não é mera condescendência a pressões acadêmicas ou tentativa de parecer politicamente correto, é antes um reconhecimento real da importância destas disciplinas para o sucesso profissional do engenheiro.

Outro problema é o fosso entre as técnicas e a precariedade de certas instituições "subdesenvolvidas", além de um certo comprometimento, nestes casos, com as classes dirigentes.

O trabalho de consultoria pelo profissional de dedicação exclusiva, atividade rotineira nas universidades dos países industrializados, é, em nosso sistema acadêmico, visto como clandestino, repreensível e até desonesto.

O engenheiro foi sempre um profissional acostumado a trabalhar com muitas variáveis. A justiça social e a saúde ambiental devem ser preocupações naturais de seu trabalho.

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