Didática para o Ensino Superior


Autora: Arilda Schmidt Godoy

Descrição: Doutora em Educação e Professora de disciplinas de educação no Ensino Superior.

Editora: Iglu - São Paulo

Ano: 1988

Pontos Marcantes: Referência para professores de terceiro grau: Pesquisadores no ensino (30); Comparação entre exposição e discussão (111); Sistema Personalizado de Ensino (118).

Registro: 378(81) / G589d



1. Introdução (1)

Partindo do pressuposto que apenas o conhecimento do assunto a ser ensinado não é suficiente, ou melhor, não confere, automaticamente, a competência para a sua transmissão, é que consideramos de extrema relevância a preparação de futuros professores em aspectos de natureza didática.

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2. Aspectos Básicos do Ensino Superior no Brasil (3)

O educador deve compreender que o que ocorre em sala de aula é decorrência de fenômenos sociais mais amplos.

Até o advento da LDB, em 1961, o ensino superior estava estruturado por diversas normas, buscando equipar tecnicamente as elites profissionais do país e proporcionar ambiente propício às vocações especulativas e desinteressadas, cujo destino, imprescindível à formação da cultura nacional, é o da investigação e da ciência pura, além de aspectos sociais fortes. Os objetivos sociais eram muito amplos e otimistas para uma época em que havia poucas escolas, que eram elitistas.

As universidades foram criadas sem reais possibilidades de se desenvolverem à partir dos modelos que orientavam estas instituições em nações mais desenvolvidas. O ensino de terceiro grau ainda manteve a sua característica de um aglomerado de escolas superiores independentes. A expansão do ensino superior no Brasil, principalmente na segunda metade dos anos 60, foi um dos fenômenos mais importantes de todo o sistema educacional.

Qualquer instituição de ensino superior deveria apresentar, mesmo que de forma embrionária, características próximas das Universidades, visando cumprir adequadamente seus objetivos de pesquisa, ensino e serviço, o que tem dificuldades de concretizar-se: aquisição, transmissão e aplicação dos conhecimentos respectivamente.

As vagas cresceram mais depressa do que os docentes qualificados, do que os laboratórios e do que as bibliotecas. A acelerada privatização do ensino superior nos últimos dez anos vem agravando o problema de qualidade e contribuindo para um maior desequilíbrio entre diferentes áreas de ensino.

E a seleção efetuada através de várias formas de concursos vestibulares é, em última instância, uma seleção deficiente, sendo, também responsável pela deterioração do ensino superior. Os alunos ingressos nas universidades apresentam nível cada vez mais baixo, o que leva a um desencanto de muitos professores com respeito à sua função de docência.

Ensino x Pesquisa (22)

A extensão universitária deve ser vista como um ponto de ligação entre a universidade e os diversos setores da sociedade. Já o ensino, que caracteriza primordialmente nossas instituições de terceiro grau, é desprestigiado quando comparado ao terceiro elemento, a pesquisa.

Isto não é somente no Brasil, a maioria dos docentes pesquisadores possuem como dogma fundamental a idéia de que a principal missão universitária revela-se na investigação, esquecendo da responsabilidade de ensino.

O distanciamento permanente entre a pesquisa e o ensino debilita os dois e pode destrui-los. Realmente, o pesquisador que ensina tende a se especializar demais, e o especialista com essa visão estreita jamais chegará a ser excelente, já que o campo da pesquisa está estreitamente relacionado com os outros campos de pesquisa. Ensinar não só obriga uma pessoa a se atualizar; esse trabalho também tem as funções sociais de difundir os resultados das pesquisas recentes, ajudando a diminuir o abismo entre as gerações.

Nosso ensino superior foi calcado no modelo das escolas profissionais francesas que geraram a criação de uma série de estabelecimentos de ensino as faculdades. Além disso, a tradição cultural católica e positivista não desenvolveu os valores e motivações necessárias a uma atividade científica. E o próprio desenvolvimento econômico do país não criou a necessidade de uma tecnologia mais complexa.

A dualidade entre ensino e pesquisa gera problemas no desempenho das funções na medida que não há uma divisão nítida entre o que se exigiria do profissional do terceiro grau enquanto docente e enquanto pesquisador. Essa situação nebulosa pode facilmente levar a distorções que beneficiam o desenvolvimento de uma delas em detrimento da outra.

Considerando sua função pedagógica, muitas vezes, como secundária, tais docentes apresentam dificuldade em desempenhar um papel formador dentro de uma universidade que procure desenvolver um tipo de ensino que exceda seu papel tradicional de mera transmissão de informações, buscando levar os alunos a pensarem por si mesmos, formulando seus próprios juízos com discernimento e senso crítico, chegando a identificar suas falhas e limites durante o processo do conhecer, o qual pode se dar tanto através de atividades individualizadas quanto do trabalho em grupo.

Consequentemente, docentes deste tipo desenvolvem desprezo pelo ensino, passando a admitir que para os trabalhos em sala de aula não se exige nenhuma aptidão e competência especiais. A eficácia pedagógica não é levada em conta nem no processo do recrutamento, nem do de ascensão profissional. Então, no "ensino superior", este ensino não é tratado com a devida atenção.

O melhor professor é o que domina determinada área do saber, objeto da comunicação docente.

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3. A Didática Enquanto "Arte e Ciência do Ensino" (35)

Ensinar e Aprender (38)

O ensino sempre envolve alguma forma de interação entre, no mínimo, dois indivíduos, enquanto o aprender é um processo interno.

O Ensino Enquanto Uma "Arte Prática" que deve Adquirir um Caráter cada vez mais Científico (42)

O professor competente identifica-se com o artista na medida que, enquanto docente, também faz uso da intuição, da capacidade de comunicação e de processos de criação. Podemos caracterizar o ensino como arte porque ele envolve julgamentos de valor, o que não lhe retira também um caráter científico.

A Necessidade dos Estudos Didáticos Dirigidos ao Ensino de Terceiro Grau (43)

Carecemos de estudos mais sistemáticos dos problemas didáticos a nível do ensino superior que conduzam a formação de um conjunto de regras apropriadas a este nível de ensino.

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4. O Professor e os Métodos de Ensino: Algumas Possibilidades de Reflexão (47)

É comum dizer que a tarefa do professor é essencialmente prática, mas não deve apoiar-se apenas da repetição de padrões de professores mais experientes. O professor deve refletir sobre sua atividade cotidiana para desenvolver seu próprio padrão.

Os Elementos Envolvidos no Ato de Ensinar (50)

O ensino, que é composto do professor, do aluno e do conteúdo, é essencialmente social envolvendo comunicação.

Quem ensina tem a obrigação de indicar de maneira clara exatamente o que tenciona que seus alunos aprendam, para evitar que o ensino se resuma em um discurso sem objetivo de ser.

As atividades de ensino devem estar relacionadas com o conteúdo a ser aprendido. É preciso também que quem pretenda estar ensinando conheça e leve em consideração a condição de seus alunos.

Parâmetros para a Análise dos Métodos de Ensino (52)

Parece que o professor eficiente em termos de sala de aula pode ser visto como aquele que possui a habilidade de optar pela melhor maneira de conduzir a situação de ensino.

Existem muitos tipos de ensino, mas é importante salientar que o estudante precisa se desenvolver em todas as áreas em harmonia. Uma vez que o professor domine um repertório básico de técnicas de ensino, ele pode ampliá-lo através de novas propostas que surgirão, além de poder transformar as já existentes.

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5. A Tecnologia da Educação e os Materiais Individualizados: da Instrução Programada ao Módulo Instrucional (59)

A tecnologia da educação implica num corpo de conhecimentos relativos ao processo educacional, calcados em pressupostos científicos, e que deverá ser aplicado para resolver problemas práticos do ensino. Possibilita o atendimento de um maior número de estudantes e uma maior qualidade na educação, mas prejudica a individualidade, o crescimento interpessoal, e o desenvolvimento das formas mais complexas de pensar e da própria criatividade.

Existem duas preocupações: a produção de equipamentos de ensino mais eficientes e a busca de técnicas, procedimentos e estratégias, baseados em pesquisas científicas, que facilitem o aprendizado.

Ensino Individualizado (68)

Os planos e materiais individualizados decorrentes de movimento da tecnologia educacional devem apresentar as seguintes características: respeito ao ritmo de aprendizagem de cada aluno; recursos para diagnóstico, recuperação e medidas de exceção; alternativas de conteúdo; individualização da avaliação; opções quanto ao local de estudo; formas alternativas de instrução.

A idéia é a de delegar ao próprio estudante maior responsabilidade por sua aprendizagem, treinando-o para que faça bom uso de seus próprios recursos, de acordo com suas necessidades e capacidade, e, organizando para ele uma infra-estrutura educacional que favoreça a efetividade de seu esforço

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6. Sistema Personalizado de Instrução (75)

Forma de ensino que respeita o ritmo do aluno. O conteúdo é dividido em unidades, cada qual correspondendo aproximadamente a uma série de exercícios de casa e de laboratório. É necessário mostrar o domínio de uma unidade antes de passa para o próxima. As palestras e demonstrações serão facultativas e sem avaliação, ocorrendo quando determinada porcentagem da classe atingir certo ponto do curso.

O monitor é um aluno não graduado, escolhido por seu conhecimento do conteúdo e da orientação do curso, sua maturidade de julgamento, sua compreensão dos problemas específicos da disciplina e vontade de ajudar. Ele fornece o material de estudo e verifica os testes de prontidão, podendo retirar dúvidas com o instrutor. A execução de testes é incentivada.

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7. A Discussão em Sala de Aula (85)

O objetivo da educação não consiste na transmissão pura e simples de verdades, mas sim que o aluno aprenda por si próprio a conquistar tais verdades. A educação pode ser considerada igualmente como um processo de socialização.

A discussão pode ser definida como uma estratégia para a aquisição de objetivos instrucionais que envolve um grupo de pessoas, normalmente o moderador e os participantes, que intercomunica-se tanto verbalmente como não verbalmente. A justificação teórica é de que o homem isolado é pura abstração. Em todas as ocasiões da vida, o homem está ligado a um grupo social que reflete a própria sociedade na sua dinâmica. Todas as relações sociais de cooperação, conflitos, coesão, pressões, normas, são produtos de um processo interativo. Tal processo se inicia e se mantém à partir do momento em que os elementos do grupo trocam seus conhecimentos, sentimentos e emoções, criando um sentimento de "nós" coletivo.

Nos grupos com objetivos educacionais, a interação sempre deverá estar presente provocando uma influência recíproca entre os participantes do processo o que implica em aprendizado entre estudantes também, assim como também da parte do professor.

A discussão bem trabalhada pode levar a várias vantagens, inclusive desenvolver a capacidade da solução de problemas. Para facilitar a resolução de problemas em grupos, o professor pode adotar certos comportamentos:

Por que os Prof. Relutam em usar a Discussão (93)

Em muitas situações, a discussão torna-se um diálogo limitado entre o professor e uns poucos alunos. Existe o medo de participar ou a presença de membros dominadores. A discussão também envolve algum barulho e desorganização, o que sugere a alguns certo descontrole do professor. A parcela de responsabilidade delegada aos alunos é vista com cautela por alguns, que também podem considerar o processo inadequado para o aprendizado, quando na verdade é altamente enriquecedor.

O número ideal de participantes nos grupos é de cinco pessoas.

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8. Aula Expositiva (97)

Uma das suas desvantagens mais apregoada é a pouca participação por parte do aluno. Mas talvez a desvantagem maior seja a de se considerar a classe como um grupo uniforme, onde todos recebam os mesmos conteúdos no mesmo ritmo.

A exposição, na sua forma tradicional, dificulta o acompanhamento que o professor pode fazer do aprendizado do aluno, não podendo, em contrapartida, a realimentação de seu lado. E um efeito colateral nocivo é o excessivo apego às notas de aula em detrimento a referências bibliográficas.

O desenvolvimento da aula expositiva pode ser de acordo com um enfoque dedutivo ou indutivo (dos exemplos para a teoria). A consolidação da aprendizagem é realizada no fechamento, instrucional e/ou cognitivo, feito através de tarefas de revisão, aplicação ou extensão. A conclusão deve vir acompanhada da bibliografia.

A percepção atenta do professor no que se refere às reações da classe pode orientá-lo no sentido de dinamizar o próprio ritmo da sua exposição com perguntas, exemplos, audiovisuais, etc., ou mesmo mudança de estratégia.

Uma postura normal, com movimentação moderada e contato visual com toda a sala parece ser a atitude mais adequada. Dicção clara é importante, não devendo ser contudo cansativo. Deve-se usar o vocabulário correto adequado à capacidade dos alunos. Pausas podem ser importantes para permitirem aos alunos organizarem o aprendizado e formularem questões.

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9. A Pesquisa Sobre o Ensino Universitário (107)

A partir de 1900 muita pesquisa educacional foi desenvolvida, e desde então, seus métodos e procedimentos tem sido consideravelmente refinados. A revisão de literatura feita por Trent, J. W. e Cohen, A. M. (1973) enfoca cinco títulos principais: ambiente de ensino, características do estudante e processo de aprendizagem, tecnologia da educação e métodos de ensino, recrutamento e treinamento de recursos humanos, avaliação de ensino.

Exposição x Discussão (111)

Algumas conclusões básicas:

  1. Não existe diferença quando o critério de efetividade é a aprendizagem de informações fatuais;
  2. A discussão é mais efetiva para objetos cognitivos complexos, como, por exemplo, a habilidade de resolver problemas;
  3. A discussão, enquanto métodos, estimula o desenvolvimento do pensamento;
  4. Mudança de atitudes, como, interesse pelo assunto, comportamento científico, curiosidade geral, atitudes democráticas, etc., são favorecidas pelo ensino através da discussão.

Relacionamento entre Características do Estudante e os Métodos de Ensino (111)

Pesquisas indicam que alunos que apresentam melhores resultados em situações convencionais de ensino (exposição) apresentam, ao mesmo tempo, baixo desempenho social e pouca criatividade. O oposto tende a atuar melhor em pequenos grupos de discussão. Essas conclusões vêm corroborar a idéia segundo o qual alunos altamente criativos apresentam curiosidade aguçada que não consegue ser satisfeita em situações convencionais de ensino.

Outra pesquisa demonstrou, comparando fatores de personalidade com o aproveitamento de estudantes em dois tipos de estudo de grupo: independente e tradicional, que não existe diferença significativa em termos de avaliação, mas maior eficiência intelectual e responsabilidade foi detectada no grupo independente.

Pesquisas Sobre Materiais e Mídia de Ensino (114)

O uso da tecnologia no ensino foi acompanhado de uma crença, talvez exagerada, de que este caminho solucionaria, de uma vez por todas, os problemas de aprendizagem do aluno a nível de sala de aula.

Alunos com textos programados mostraram desempenho melhor na resposta correta de testes, mas não se destacaram quando o teste solicitava um esforço de transferência das informações para outras situações. O tempo de aprendizagem tende a ser relativamente menor.

Pesquisas Sobre o Uso do Computador (116)

O computador tem sido utilizado, nos anos 70, basicamente para desenvolver as seguintes modalidades de instrução: exercício e prática, tutoriais, solução de problemas, simulação e jogos. O tempo de aprendizagem demonstrou-se menor.

Sistema Personalizado de Instrução (118)

Conduz a obtenção de níveis mais altos de aproveitamento e de uma atitude mais favorável do aluno em relação ao ensino.

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10. Considerações Finais (123)

Os mecanismos de formação do professor de ensino superior no Brasil acabam por traçar um perfil do professor universitário brasileiro: "...é comum existir uma lacuna, o professor se caracteriza como um especialista no seu campo de conhecimentos; este é, inclusive, o critério para sua seleção e contratação; porém, não necessariamente este professor domina a área educacional e pedagógica, nem do ponto de vista mais amplo, mais filosófico, nem do ponto de vista mais imediato, tecnológico (2.2.3).

Ainda que a experiência seja importante para o professor no exercício da docência, existe um corpo de conhecimentos que pode fornecer contribuições para as decisões a serem tomadas pelo docente no seu desempenho profissional.

É importante ressaltar que mudanças metodológicas (opção por novas formas de ensinar) não exigem apenas o conhecimento da técnica e a boa vontade do docente. Também implicam uma nova postura da direção das nossas instituições de ensino superior no sentido de favorecer o trabalho inovador de seus professores.

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