O Conhecimento Popular
 

O conhecimento popular caracteriza-se por ser predominantemente:

  • Superficial, isto é, conforma-se com a aparência, com aquilo que se pode comprovar simplesmente estando junto das coisas: expressa-se por frases como "porque o vi", "porque o senti", "porque o disseram", "porque todo mundo diz";
  • Sensitivo, ou seja, referente a vivências, estados de ânimo e emoções da vida diária";
  • Subjetivo, pois é o próprio sujeito que organiza suas experiências e conhecimentos, tanto os que adquire por vivência própria quanto os "por ouvir dizer";
  • Assistemático, pois esta "organização" de experiências não visa a uma sistematização das idéias, nem na forma de adquiri-las nem na tentativa de validá-las;
  • Acrítico, pois, verdadeiros ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o sejam não se manifesta sempre de uma forma crítica.

(Lakatos, Eva M. e Marconi, Marina A., "Metodologia Científica", Editora Atlas S.A., São Paulo SP. 1991, p.13)


"O conhecimento do senso comum [ou conhecimento popular], sendo resultado da necessidade de resolver os problemas diários não é, portanto, antecipadamente programado ou planejado. À medida que a vida vai acontecendo ele se desenvolve, seguindo a ordem natural dos acontecimentos. Nele, há uma tendência de manter o sujeito que o elabora como um espectador passivo da realidade, atropelado pelos fatos. Por isso, o conhecimento do senso comum caracteriza-se por ser elaborado de forma espontânea e instintiva". (p. 24)

"Esses conhecimentos, pelo fato de darem certo, transformam-se em convicções, em crenças que são repassadas de um indivíduo para o outro e de uma geração para a outra". "Sabem que 'faz bem', mas não sabem por quê". (p. 25)


"O conhecimento do senso comum tem uma objetividade muito superficial e limitada por estar demasiadamente preso a vivência, à ação e à percepção orientadas palo interesse prático imediatista e pelas crenças pessoais. Os aspectos da realidade ou dos fatos que não se enquadram dentro desse enfoque de interesse utilitário, geralmente são excluídos, ocasionando uma visão fragmentada e, algumas vezes, distorcida dessa realidade". (p.25)

"No senso comum, a revisão e a crítica destas crenças acontecem apenas quando "evidências espontâneas proporcionam uma correção da interpretação anterior, permanecendo acrítico enquanto tal não ocorrer (Bunge, 1986, p. 20)". (p. 25)

"O motivo mais sério, portanto, que faz com que o conhecimento do senso comum se torne subjetivo e inseguro, é essa incapacidade de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de interpretações sustentadas apenas nas crenças pessoais". (p. 25)

"A linguagem utilizada no conhecimento do senso comum contém termos e conceitos vagos, que não delimitam a classe de coisas, idéias ou eventos designados e não designados por eles, ou o que é incluído ou excluído na sua significação. Os termos são utilizados por diferentes sujeitos sem haver previamente uma definição clara e consensual que especifique as condições desse uso". (p. 26)

"A significação dos termos fica dependente do uso em um dado momento ou contexto, do nível cultural e da intenção significativa de quem os utiliza". (p. 26)


"O poder da revisão e de crítica objetiva do senso comum, portanto, é muito fraco, contribuindo para elevar a sua dependência das crenças e convicções pessoais, restringindo-o a uma subjetividade significativa. Por isso, pelo baixo poder de crítica que dificulta a localização de possíveis falhas, as crenças do senso comum são aceitas por longos períodos de tempo e apresentam uma durabilidade e estabilidade muitas vezes superior à da própria ciência". (p.27)

 

"O conhecimento do senso comum é útil, eficaz e correto quando as informações acumuladas pela tradição aplicam-se ao mesmo tipo de fatos que se repetem e se transformam em rotina e quando as condições e fatores determinantes desses fatos foram constantes". (p. 28)

"Se analisarmos os enunciados do conhecimento do senso comum, verificaremos que se referem à experiência imediata sofre fatos ou fenômenos observados. Esse tipo de conhecimento possui grandes limitações. Por ser vivencial, preso a convicções pessoais e desenvolvido de forma espontânea, torna-se na maioria das vezes impreciso ou até mesmo incoerente. Gera crenças arbitrárias com uma pluralidade de interpretações para a multiplicidade dos fenômenos. Essa pluralidade é fruto do viés utilitarista e imediatista, voltado para assuntos e fatos de interesse prático e com validade aplicável somente às áreas de experiência rotineira. O conhecimento do senso comum não proporciona uma visão global e unitária da interpretação dos fenômenos. É um conhecimento fragmentado, voltado à solução dos interesses pessoais, limitado às convicções subjetivas, com um baixo poder de crítica e, por isso, com tendências a ser dogmático. Apesar da grande utilidade que apresenta na solução dos problemas diários ligados à sobrevivência humana, ele mantém o homem como espectador demasiadamente passivo da realidade, com um baixo poder de interferência e controle dos fenômenos". (p. 28)

(Köche, José C. "Fundamentos de Metodologia Científica", Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1997)

Exemplo de conhecimento popular:

"Ouvi dizer que as verduras crescem mais quando plantadas sob lua cheia."