|
Caro Teólogo...
|
|
Caro teólogo, Tenho
algumas perguntas e acho que você seria a pessoa certa para responde-las.
Algumas vezes é difícil ficar sentado aqui em cima, no céu,
sem ninguém para conversar. |
|
|
Digo conversar realmente. Sempre posso conversar com os anjos, certamente, mas já que eles não têm livre arbítrio, e já que criei todos os pensamentos em suas mentes submissas, eles não são interlocutores muito interessantes. Naturalmente, posso conversar com meu filho Jesus, e com a “terceira pessoa” da nossa trindade sagrada, o Espírito Santo, mas já que somos todos os mesmos, não há nada que possamos aprender um com o outro. Não existem trocas de réplicas bem colocadas na cabeça de Deus. Sempre sabemos o que o outro sabe. Certamente não poderíamos jogar xadrez. Jesus algumas vezes me chama de “Pai”, o que é bom, mas já que ele e eu somos da mesma idade e temos os mesmos poderes, isso não significa muita coisa. |
![]() |
|
Pode lhe causar surpresa saber que eu tenho algumas perguntas a fazer. Não são perguntas retóricas com o intuito de ensinar lições espirituais, e sim reais e honestas. Isso não deve lhe deixar chocado porque, afinal de contas, lhe criei à minha imagem e semelhança. Seus questionamentos são uma herança minha. Você diria que o amor, por exemplo, é um reflexo de minha natureza dentro de você, não diria? Já que questionamentos são saudáveis, eles também vêm de mim. |
|
![]() |
Já disseram que devemos provar tudo e reter com unhas e dentes o que é bom. Minha primeira pergunta é a seguinte: DE ONDE VIM? Olho ao meu redor e noto que não há nada mais além de mim mesmo e das coisas que criei. Não vejo outras criaturas competindo comigo ou nada acima de mim que possa ter me criado, a menos que esteja brincando de esconde-esconde. De qualquer modo, pelo que eu saiba (e dizem que sei tudo), não há nada mais além de mim (nas três pessoas) e das minhas criações. Segundo você, Eu sempre existi. Não criei a mim mesmo, porque se tivesse feito isso, então seria maior do que eu próprio. Sendo
assim de onde vim? |
|
Sei que você também tem esse mesmo questionamento, considerando sua própria existência. Você observa que a natureza, especialmente a mente humana, mostra evidências de um intrincado projeto. Você nunca considerou tal projeto independente de um projetista. Você argumenta que os seres humanos devem ter tido um criador, e com relação a esse ponto de vista, não terá nenhuma discordância da minha parte. Então, o que me diz de mim? Do mesmo modo que você, observo que minha mente é complexa e intrincada. Muito mais complexa do que a sua, pois de outra maneira como poderia tê-la criado? Minha personalidade mostra evidências de organização e propósito. Algumas vezes me surpreendo com minha sabedoria. Se você pensa que sua existência prova a existência de um criador, e a minha? Não sou maravilhoso? Não funciono de uma maneira organizada? Minha mente não é uma confusão aleatória de pensamentos desordenados. Ela mostra o que você chamaria de evidências de um planejamento anterior. Se você exige um esquematizador para justificar sua existência, então porque não eu? Você
deve pensar que fazer tal pergunta é uma blasfêmia, mas pra
mim não existe tal crime. Posso fazer a pergunta que quiser, e
acho que essa é relevante e justa. Se você diz que tudo precisa
de um criador, e depois diz que nem tudo (Eu) precisa, não está
se contradizendo? Deixando-me fora do argumento, não está
trazendo sua conclusão para dentro do argumento? Isso não
é raciocínio circular? Não estou dizendo que discordo
de sua conclusão. Como poderia? Estou apenas me perguntando porque
é certo para você deduzir um criador e não para mim.
|
|
|
Se você diz que não preciso perguntar de onde vim porque sou perfeito e onisciente, enquanto os humanos são falhos, então não precisa do argumento de que o universo exige um criador, não é mesmo? Você já chegou a conclusão que existo antes de faze-lo. Pode fazer tal suposição, certamente, e essa liberdade não lhe seria negaria. Esse argumento circular, a priori, pode ser de grande auxílio e bastante reconfortante para você, mas para mim não trás nenhum conforto. Não me ajuda a descobrir de onde vim. |
![]() |
|
Você diz que sempre existi, e suponho que não lhe faria nenhuma objeção se soubesse o que isso significa. Para mim é difícil conceber uma existência eterna. Simplesmente não consigo fazer minha imaginação voltar tão longe. Afinal, teria que levar toda a eternidade para voltar a meu inicio, deixando-me sem tempo para fazer outras coisas, de tal maneira que é impossível que eu confirme se sempre existi. E mesmo que isso fosse verdade, por que ser eterno é melhor que ser temporal? Um longo sermão tem que ser melhor que um curto? O que significa “melhor”? Os gordos são melhores que os magros, ou os velhos melhores que os novos? Você pensa que é importante achar que eu sempre tenha existido. Vou aceitar sua palavra, por enquanto. Minha pergunta não é sobre a duração da minha existência, e sim sobre a origem da mesma. Não sei como o fato de ser eterno explique tudo. Ainda quero saber de onde vim. Só consigo imaginar uma possível resposta, e gostaria de saber qual seria sua reação a ela. Sei que existo. Sei que não poderia ter criado a mim mesmo. Também sei que não poderia existir um Deus em plano mais elevado que pudesse ter me criado. Já que não posso procurar um criador num plano elevado, talvez deva procura-lo num nível inferior. Talvez – e isso é pura especulação, mas tenha um pouco de paciência – talvez você tenha me criado. Não
fique chocado. Estou apenas querendo te lisonjear. Já que constituo
prova de um planejamento anterior dada a minha complexidade, sendo que
não vejo nenhum outro lugar onde possa ter originado, sou forçado
a procurar por um criador, ou criadores, na própria natureza. Você
faz parte da natureza. É inteligente – assim dizem seus leitores.
Por que não deveria encontrar a resposta à minha pergunta
em você mesmo? Dê-me uma mão nesse aspecto.
|
|
![]() |
Com certeza se você me fez, eu não poderia tê-lo feito, acho eu. A razão que me faz achar que eu te fiz é porque você me fez pensar assim. Você diz freqüentemente que um criador pode colocar pensamentos na sua cabeça. Então não seria também possível que você tivesse colocado pensamentos em minha cabeça, e agora aqui estamos nós dois, imaginando de onde viemos? Alguns de vocês dizem que as respostas a essas perguntas são um mistério: Só Deus sabe. Bem, muito obrigado. Eu assumo a responsabilidade. Por um lado você usa a lógica para tentar provar minha existência, mas por outro lado, quando a lógica chega a um beco sem saída, você a abandona e apela para a “fé” e o “mistério”. Essas palavras podem ser de grande utilidade para você, como delimitadores de fatos ou verdades, mas para mim elas nada significam. Você pode fingir que a palavra “mistério” significa algo terrivelmente importante, mas para mim ela simplesmente significa que você não sabe de nada.
|
|
Alguns de vocês garantem que não “vim” de lugar algum. Apenas existo. Contudo, já os ouvi afirmarem que nada pode vir do nada. Ou uma coisa ou outra. Existo ou não. O que causou minha existência ou não existência? Se não preciso de causa, por que você precisaria? Já que não me satisfaço em dizer que isso é um mistério, devo aceitar a única explicação que faz sentindo. Você me criou. Essa idéia é tão terrível assim? Sei que você pensa que muitos outros deuses foram criados por humanos: Zeus, Tor, Mercúrio, Elvis. Você reconhece que tais deidades originaram-se nos desejos, na necessidade ou no medo dos humanos. Se as crenças divinas daqueles bilhões de indivíduos podem ser taxadas de produtos da cultura de cada um, então por que as suas também não podem? Os persas criaram Mitra, os judeus criaram Jeová, e você me criou. Se eu estiver errado sobre isso, por favor, corrija-me. Minha segunda pergunta é a seguinte: PARA QUE TUDO ISSO? Talvez eu me fiz, talvez outro deus me fez, talvez você tenha me feito – deixemos isso de lado por hora. Eu estou aqui nesse momento. Por que estou aqui? Muitos de vocês me buscam para dar um propósito as suas vidas, e tenho freqüentemente declarado que seu propósito é me agradar (Leia Apocalipse 4:11). Se o seu é me agradar, qual é o meu? Agradar a mim mesmo? Só isso? Assim se resume minha vida? Se existo para meu próprio prazer, então sou egoísta. Faz parecer como se eu os tivesse criado meramente para ter alguns brinquedos vivos com os quais brincar. Não existe nenhum princípio superior ao qual possa me entregar? Alguma coisa para admirar, adorar, e venerar? Estou condenado, por toda a eternidade, a ficar sentado aqui e a me divertir com a adoração dos outros? Ou com minha auto adoração? Afinal de contas, qual é o objetivo de tudo isso? Li seus artigos sobre o significado da vida e, não me interprete mal, eles fazem sentido no contexto teológico de metas religiosas humanas, embora não tenham muita aplicabilidade no mundo real. Muitos de vocês sentem que o propósito de suas vidas é atingir a perfeição. Já que vocês estão longe da perfeição, como vocês mesmos admitem (e eu concordo), então o auto-aperfeiçoamento lhes proporciona uma busca. Ela lhes dá algo para fazer. Algum dia vocês esperam serem tão perfeitos como você pensa que sou. Mas já que já sou perfeito, por definição, então não preciso de tal propósito. Só estou passando o tempo, creio eu. |
|
|
Mesmo assim, ainda fico admirado por estar aqui. É gostoso existir. É ótimo ser perfeito. Mas desse modo não tenho nenhum propósito. Nenhuma utilidade. Criei o universo com todos os tipos de leis naturais que governam tudo, dos quarks até os aglomerados de galáxias, e isso tudo funciona bem por si só. Tive que fazer essas leis, porque, de outra maneira, teria que me envolver com uma grande quantidade de trabalhos repetitivos, tais como puxar raios de luz pelo espaço, arremessar corpos cadentes sobre a Terra, grudar átomos, para juntos formarem moléculas, e um trilhão de outras tarefas aborrecidas mais dignas de um escravo do que de um Senhor. Vocês descobriram a maior parte dessas leis, e devem estar a ponto de montar todo o quebra-cabeça. Uma vez que tenham feito isso, saberão o que eu sei: que não há nada no universo para eu fazer. É um saco aqui em cima. |
![]() |
|
Eu poderia criar mais universos e mais leis, mas para que? Já fiz vários universos. Criação é como espirrar ou escrever contos; simplesmente são expelidos de mim. Eu poderia criar até dizer chega. Criar, criar, criar. Depois de certo tempo, qualquer um fica com o saco cheio de tanto repetir a mesma coisa, como quando você come uma caixa cheinha de chocolates e ai vê que o último pedaço não tem um gosto tão bom quanto o primeiro. Uma vez que você já teve dez filhos, por que ter vinte? (estou perguntando a você, e não ao Papa) Se mais é melhor, então sou obrigado a continuar, até ter procriado um número infinito de crianças, e um número sem fim de universos. Se sou forçado a isso, então não passo de um escravo. Muitos de vocês asseguram que é inapropriado procurar propósito dentro de si mesmo. Que isso deve vir de fora. Penso o mesmo. Não posso ter um propósito sem uma necessidade especifica. Se assim procedesse, teria quer razões para isso. Teria de inventar uma explicação do porque escolhi um propósito ao invés de outro e, se tais razões vêm de dentro de mim, eu seria apanhado num círculo fechado de racionalizações autojustificadas. Já que não existe nenhum Poder Superior a mim, então não tenho propósito. Nada por que viver. Isso tudo não faz sentido. Com certeza posso dar significado a você – me agradar, buscar a perfeição, seja lá o que for – e talvez só isso lhe importe. Mas não lhe incomoda, pelo menos um pouquinho, que a fonte de significado para sua vida não tenha nenhuma fonte de significado para si própria? E se isso é verdade, então não é também verdade que no final você não tenha nenhum significado para si mesmo também? Se te faz feliz ter um ponto de referência externo para atribuir seu propósito, por que me negaria o mesmo? Eu também quero ser feliz, e quero encontrar essa felicidade em alguma coisa fora de mim mesmo. Isso é pecado? Por outro lado, se pensam que eu tenho o direito e a liberdade de encontrar felicidade em mim mesmo e nas coisas que crio, então por que vocês não poderiam ter o mesmo? Você, a quem criei à minha imagem?
|
|
![]() |
Sei que alguns de vocês propuseram soluções para esse problema. E chamam essa solução de “amor”. Pensam que sou solitário aqui em cima nas alturas, e que os criei a fim de satisfazer minha ânsia por um relacionamento com algo que não seja eu mesmo. Mas isso não tem sentido, porque me é impossível criar algo aparte de mim mesmo, mas vamos supor que eu tivesse feito isso de alguma forma. Digamos que criei esse mecanismo chamado “livre arbítrio”, o qual concede aos humanos uma escolha. Se lhes dou liberdade (embora isso esteja ampliando um pouco o significado da palavra já que nada escapa ao meu poder) de não me amar, então se alguns de vocês, alguns poucos, mesmo um de vocês, decide me amar, ganhei alguma coisa que poderia não ter tido. Ganhei um relacionamento com alguém que poderia ter feito outra escolha. Vocês chamam isso de amor. |
|
Essa é uma grande idéia, no papel. Na vida real, contudo, isso implica que milhões, bilhões de pessoas decidiram não me amar, e tenho que fazer alguma coisa com esses descrentes. Não posso simplesmente descria-los. Se simplesmente destruir todos os descrentes, então porque não criei somente fieis desde o princípio. Já que sou onisciente, saberia com antecedência quais das minhas criaturas teriam uma tendência a me escolher, e isso não produziria nenhum conflito com o livre arbítrio, jáque aqueles que não me escolheriam teriam sido eliminados de antemão, simplesmente não tendo sido criados em primeiro lugar (poderíamos chamar isso de Seleção Sobrenatural). Parece muito mais misericordioso de que o inferno. Não dá para ter um relacionamento amoroso com alguém que não é igual a você. Se vocês, humanos, não têm uma alma eterna garantida, como ocorre comigo, então vocês são sem valor como companheiros. Se não posso respeitar seu direito de existir independentemente, e seu direito de escolher alguma coisa que não seja eu, então não poderia amar aqueles de vocês que realmente me escolheram. Teria de encontrar um lugar para as bilhões de almas eternas que me rejeitaram, seja lá por qual razão. Chamemos esse lugar de “inferno”, um lugar que é não-Deus, não-eu, onde não estou. Teria que criar esse inferno, senão nem eu nem os descrentes poderíamos escapar um do outro. Vamos ignorar o problema técnico de como poderia ser concretizada a criação do inferno, para depois separá-lo de mim mesmo, aparte de quem nada mais existe (Não posso simplesmente criar alguma coisa e então simplesmente jogá-la fora – não há nenhuma pilha de lixo cósmico). O ponto é que já que sou supostamente perfeito, esse lugar de exílio deveria ser o meu oposto. Deveria ser o supremo mal, a dor, a escuridão e o tormento. Se criei o inferno, então não gosto de mim mesmo. Se criei o inferno, então com certeza não seria esperto de minha parte alertar as pessoas para esse fato. Como iria saber se as pessoas estariam clamando me amar por mim mesmo ou simplesmente para evitar punição? Como posso esperar que alguém me ame, se está com medo de mim em primeiro lugar? A ameaça de eterno tomento pode apavorar algumas pessoas e levá-las à obediência, mas isso em nada inspira amor. Se você me tratasse com ameaças e intimidações, eu teria que repensar minha admiração pelo seu caráter. Como você se sentiria se tivesse posto alguns filhos no mundo, sabendo que elas seriam atormentadas eternamente num lugar que você construiu para elas? Como você poderia conviver com você mesmo sabendo disso? Ao invés disso, não teria sido melhor não tê-las posto no mundo? Sei que alguns de vocês pensam que o inferno é apenas uma metáfora. Vocês sentem a mesma coisa com relação ao céu? |
|
|
De
qualquer modo, esse argumento de amor está totalmente errado. Já
que sou perfeito, não tenho carências. Não posso ser
solitário. Não preciso ser amado. Nem mesmo quero ser amado,
porque querer é sentir falta. Submeter-me ao ato de dar e receber
amor é admitir que posso ser afetado por aqueles que decidiram
não me amar. Se você pode me ferir, não sou perfeito.
Se não posso ser ferido, não posso amar. Se ignoro ou elimino
aqueles que não me amam, mandando-os para o inferno ou para o esquecimento,
então meu amor não é sincero. Se tudo que estou fazendo
é jogar os dados do “livre arbítrio” e simplesmente colhendo
a safra daqueles que escolheram me amar, então sou um monstro egoísta.
Se você jogou esse tipo de jogo com as vidas das pessoas, eu te
chamaria de insensível, vaidoso, inseguro, egoísta e manipulador.
|
![]() |
|
Sei que vocês tentaram tirar meu corpo fora. Explicam que eu mesmo não sou responsável pelos sofrimentos dos descrentes, porque a rejeição a Deus é escolha deles e não minha. Eles têm uma natureza humana corrupta, você explica. Bem, quem lhes deu essa natureza? Se certos humanos decidem fazer coisas erradas, onde encontraram esse impulso? Se você acha que veio de Satã, quem criou Satã? E por que alguns humanos seriam suscetíveis a Satã em primeiro lugar? Quem criou essa suscetibilidade? Se Satã foi criado perfeito, e então caiu, de onde a falha da perdição veio? Se sou perfeito, então como, em nome de Deus, terminaria criando alguma coisa que não escolhesse a perfeição? Alguém uma vez falou que uma árvore boa não pode dar frutos ruins. Aqui está um título para seu próximo assunto teológico: “Eva era perfeita?” Se era, não deveria ter comido o fruto. Se não era, então criei uma imperfeição. Talvez você pense que tudo isso me dá um propósito—reconstruir um brinquedo quebrado—mas isso na verdade me dá dor de cabeça. (Se você não me permite ter uma simples dor de cabeça, então como pode me permitir a dor da perda do amor?) Eu não conseguiria conviver comigo mesmo se soubesse que minhas ações estavam causando sofrimento aos outros. Bem, eu não deveria dizer isso. Uma vez que penso que você me criou, suponho que deva deixar você me dizer o que devo ou não agüentar. Se você pensa que é consistente com meu caráter tolerar amor e vingança simultaneamente, então não tenho escolha. Se você é meu criador, eu poderia jorrar ternura por um lado da minha boca e brutalidade pelo outro. Poderia dançar com minha amante sobre os ossos dos meus filhos depravados, e fingir gostar disso. Eu seria muito humano na verdade. |
|
![]() |
Ainda tenho milhares de perguntas, mas espero que você me permita apenas mais uma: COMO EU DECIDO O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO? Não sei como cheguei aqui, mas cá estou. Digamos que meu propósito é tornar minhas criaturas boas. Digamos que estou te ajudando a ser tão perfeito quanto eu, e que a melhor maneira para isso é você agir exatamente como eu, ou como eu quero que você haja. Sua meta é tornar-se é refletir o que sou. Não seria esplêndido? Dar-lhe-ei regras ou princípios, e você tentará segui-los. Isso pode ter significado ou não, mas pelo menos nos manterá ocupados. Suponho que de seu ponto-de-vista isso seria incrivelmente significativo, uma vez que você pensa que tenho o poder de recompensar e punir. |
|
Sei que alguns teólogos protestantes pensam que dou recompensas, não por boas ações, mas simplesmente por acreditarem em meu filho, Jesus, que pagou por suas más ações. Bem, Jesus passou somente trinta e seis horas da sua vida eterna no inferno, e agora está de volta aqui, no aconchego da minha presença. Isso é o que chamo de pegar leve!Ele não teve liberdade condicional por bom comportamento. Foi simplesmente solto (Ele tinha contatos). Se meu julgamento justo exigia uma correta reparação, então Jesus deveria ter pagado o preço completo, não acha? Além disso, é inteiramente incompreensível para mim o fato de você pensar que eu aceitaria o sangue de um indivíduo pelo crime de outro. Isso é justo? Isso é justiça? Se você comete um crime, a lei permite que seu irmão vá para a cadeia por você? Se alguém roubasse seu lar, você pensaria que a justiça seria cumprida se um amigo lhe comprasse móveis novos? Você realmente pensa que sou um ditador sanguinário que me contentaria com a morte de alguém pelo crime de outro? Você é tão desrespeitador da justiça que alegremente aceitaria um substituto ou bode expiatório por seus crimes? O que me diz de responsabilidade pessoal? É desagradável abrir meus braços para dar as boas vindas, no céu, àqueles que evitaram punições por suas próprias ações. Alguma coisa aqui está errada. Mas ignoremos essas objeções. Suponhamos que Jesus e eu chegamos a um acordo e que no final o mau será punido e o bem recompensado. Como vou saber a diferença? Você insiste que eu não consulte nenhum livro de código penal. Você me pede para ser a Autoridade Final. Devo simplesmente decidir, e você deve acatar minha decisão. Sou livre para decidir seja lá o que quiser? Suponhamos que decida que gostaria que você me consagrasse um dia. Gosto do número sete, não sei bem porque. Talvez porque seja o primeiro número inútil. (você nunca fez um hino para mim no compasso 7/4). Vamos dividir o calendário em grupos de sete dias e chamá-los de semanas. Por questão de harmonia, dividirei cada fase lunar em sete dias. O último dia da semana – ou talvez o primeiro dia, não importa – dedico a mim mesmo. Vamos chamá-lo de Sábado. Isso tudo parece bom. Suponho que é a coisa certa a fazer. Farei uma lei ordenando que você respeite o Sábado, e se você fizer isso eu o declararei uma pessoa boa. De fato, farei da lei do Sábado um dos meus Grandes Dez Mandamentos, e ordenarei sua execução se você desobedecer. Isso tudo tem sentido, não sei bem porque. Ajude-me então. Como poderei escolher o que é moral? Já que não posso consultar nenhuma autoridade, a coisa a fazer, parece, é escolher aleatoriamente. As coisas se tornarão certas ou erradas simplesmente porque declaro que elas sejam assim. Se aleatoriamente digo que você não deve fazer imagens ou esculturas de “qualquer coisa que esteja debaixo do céu, ou que está lá embaixo na Terra, ou que está na água sobre a Terra”, então tem que ser assim. Se decidir que assassinato é correto e compaixão é errada, você terá que aceitar isso. |
|
|
Basta? Apenas decido, sem mais nem menos, o que é certo e o que é errado? Ou pior, decido baseado no que me faz sentir bem? Li em algum dos seus livros que você denuncia essas atitudes autocentradas. Alguns
de vocês dizem que já que sou perfeito, não consigo
cometer erros. Tudo que escolher para ser certo ou errado, estará
de acordo com a minha natureza, e já que sou perfeito, então
minhas escolhas serão perfeitas. De qualquer modo, minhas escolhas
certamente serão melhores do que as suas, não é assim
que pensa? Mas o que significa “perfeito”? Se minha natureza é
perfeita (seja lá o que isso signifique), então correspondo
a um padrão.Se estou correspondendo a um padrão, então
não sou Deus. Se perfeição significa alguma coisa
por si mesma, aparte de mim, então sou obrigado a seguir seus passos.
Se, por outro lado, perfeição é definida simplesmente
como conformidade com minha natureza, então isso não significa
nada. Minha natureza pode ser o que ela quiser, e perfeição
será definida de acordo com isso. Você vê o problema
que temos aqui? Se “perfeição” é igual a “Deus”,
então é só um sinônimo de mim mesmo, e podemos
deixar de lado qualquer das duas palavras. Podemos deixar de lado qualquer
uma das duas: perfeição ou Deus. Faça sua escolha.
|
![]() |
|
Se sou perfeito, então há certas coisas que não posso fazer. Se não sou livre para sentir inveja, cobiça ou maldade, por exemplo, então não sou onipotente. Não posso ser mais poderoso que você, se você pode sentir e fazer coisas que não posso. Ainda mais, se você sente que Deus é perfeito, pela sua própria natureza, o que “natureza” significa? A palavra é usada para descrever a maneira como as coisas são ou agem naturalmente, e já que você pensa que estou acima da natureza, você deve ter outro significado em mente, como “caráter” ou “atributos”. Ter uma natureza ou um caráter significa ser de um jeito ou de outro. Significa que existem limites. Por que sou de um jeito e não de outro? Como vou saber que minha natureza seria o que é? Se minha natureza está claramente definida, então sou limitado. Não sou Deus. Se minha natureza tem limites, como alguns de vocês sugerem, então não tenho natureza de maneira nenhuma, e dizer que Deus tem tal e tal natureza não faz sentido. De fato, se não tenho limites, então não tenho identidade. Se não tenho identidade, então não existo. Quem sou eu? Isso me leva a um enigma: se não sei quem sou, então como posso decidir o que é certo? Devo matutar até conseguir descobrir alguma coisa? Há um procedimento que poderia adotar, e alguns de vocês sugeriram isso para si próprios. Poderia basear meus pronunciamentos no que é melhor para vocês humanos. Vocês, pessoas, têm corpos físicos que se movem, aos trancos, por toda parte, no mundo físico. Poderia determinar as ações que são saudáveis e benéficas para seres materiais, num ambiente material. Poderia fazer da moralidade alguma coisa material. Algo que seja relativo à vida humana, e não aos meus caprichos. Poderia declarar (por conclusão, não por decreto) que prejudicar a vida humana é ruim, e que ajudar a melhorá-la é bom. Seria como fornecer um manual de operações para algo que projetei e manufaturei. Seria necessário que eu soubesse tudo sobre a natureza humana e o ambiente no qual vocês vivem, e lhes comunicar essas idéias. |
|
![]() |
Isso faz muito sentido, mas muda minha tarefa de “determinador da moralidade” para outra de “comunicador da moralidade”. Se moralidade é descoberta na natureza, então você não precisa de mim, exceto talvez para estimula-la. Dotei-lhes de mentes capazes, com a habilidade de raciocinar e fazer ciência. Não há nada misterioso sobre estudar como os humanos interagem com a natureza e como interagem uns com os outros, e você deve ser capaz de inventar seu próprio conjunto de regras. Alguns de vocês fizeram isso, milênios antes de Moisés. Mesmo se suas regras contradissessem as minhas, eu não poderia clamar por nenhuma autoridade maior que vocês. Pelo menos vocês seria capazes de dar razões para suas regras, as quais eu somente posso fazer, submetendo-me à ciência de vocês. |
|
Se moralidade é definida por “como os seres humanos existem na natureza”, então você não precisa de mim absolutamente. Estou fora dessa. Pelo que tenho lido, a maioria de vocês têm os pés no chão, sem nenhuma ajuda da minha parte. Eu poderia manufaturar algumas tábuas de pedra, contendo o que penso que é certo ou errado, mas ainda caberia a você ver se isso funcionaria no mundo real. Penso que nós todos concordamos que a razão alicerçada é melhor do que os caprichos de uma deidade desequilibrada. Esta é uma abordagem maravilhosa, mas o que me incomoda é que, enquanto isso pode ajudar-lhes a saber o que é moral em seu ambiente, a mim não ajuda muito. Não tenho um ambiente. Estou aqui fora, agitado pela brisa. Invejo vocês. Nem o caminho humanístico ajuda àqueles de vocês que querem que a moralidade seja enraizada em alguma coisa absoluta, fora de nós mesmos. Deve ser apavorante para você precisar de uma âncora e descobrir que não há nenhum fundo no oceano. Bem, isso é apavorante para mim também. Não tenho uma âncora para mim mesmo. É por isso que estou lhe pedindo ajuda. Obrigado por ler minha carta, e por me deixar ocupar uma parte do seu precioso tempo. Por favor responda, se achar conveniente. Tenho todo o tempo do mundo. Sinceramente, Deus
Obs:
Tradução e cortesia do Free_Thinker,
César Medeiros. Revisão: José Moreira da Silva. |
|