O Nascimento da Ciência
 

(A Revolução Científica do Século XVII)

"Galileu, até 1632, foi um bom amigo do Papa e outros líderes da igreja. O cardeal Bérulle deu um impulso à carreiras de Descartes. A Royal Society foi fundada e conduzida por um grupo de bispos anglicanos. De minha parte, afirmo que, se achar válido pesquisar o assunto, poderá encontrar tantos casos impressionantes em que as instituições religiosas no século XVII encorajaram, apoiaram e desenvolveram a nova ciência, quanto os casos em que a ela se opuseram e criaram obstáculos." ... "Padre Mersenne, Padre Torricelli, e o gênio científico e fanático-religioso Blaise Pascal" ...

"Em linhas gerais, minha suspeita é a de que o perído compreendido entre Copérnico e Newton é domindao por uma guerra entre os teólogos e que os cientistas apenas ocasionalmente dela tomaram parte. A ocupação mais arrisccada de 1500 em diante era a de professor de teologia. Realmente importava o que cada um dizia. A estimativa de mortes de teólogos por condenação à fogueira, tortura e encarceramento, excede em muito a de cientistas." ...

"Num mundo em que padres eram queimados em óleo fervente na Holanda, ou encarcerados na Inglaterra e os protestantes esquartejados na França, as concepções religiosas tinham obviamente uma relevância que as científicas não tinham." ...
"A maior parte dos cientistas morreu de velhice ou erro médico, a não ser aqueles que combinaram seu trabalho científico com interpretações religiosas, como Agrippa de Netteshein e Giordano Bruno. O arcebispo dee Carrnza, Primaz da Espanha, passou 13 anos numa solitária aguardando julgamento por seus desvios quanto à sutilezas teológicas, enquanto o caso de Galileu foi resolvido mediante um despacho e pela simples abjuração. Digo 'simples abjuração' porque tudo que ele teve que fazer foi declarar-se arrependido, enquanto que nos casos normais da Inquisição espanhosa, os réus apodreciam na masmorra durante anos, a seguir eram chamados a se confessarem arrendidos sem ter sido dito que crime haviam cometido, depois torturados para saber que estavam realmente arrependidos, então forçados a delatar todos os hereges que porventura conhecessem, fornecendo provas contra eles, e só então as autoridades inquisitórias iriam decidir a punição apropriada, antes que o indivíduo pudesse se reconciliar com a Igreja. As punições variavam do banimento, ruína econômica, flagelação massiva e sentenças de confinamento ou à morte por garrotamento, por seu sincero arrependimento. Um negativo, isto é, um herético não arrependido, era queimado vivo." ...

"As Escrituras nos dizem como ir para o Céu e como é o Céu. As Escrituras não são um texto sobre física ou astronomia. Quando as Escrituras narram que Josué ordenou que o Sol parasse, isto pode ser interpretado como uma expressão da linguagem cotidiana e não como um modo de expressão da técnica científica." ...

"Em seu brilhante trabalho sobre o vácuo e a pressão atmosférica, Pascal arruinou a concepção aristotélica da natureza, sobretudo com a tese de que a natureza tem horror ao vácuo, mostrando ainda com uma vasta gama de fenômenos sobre líquidos e pressões poderiam ser compreendidos a partir das leis da mecânica. Descartes ofereceu uma nova metafísica para justificar a interpretação da natureza como uma vasta máquina em que todas as partes integrantes, inclusive os organismos biológicos, são máquinas menores, e Hobbes estendeu a tese mecanicista ao homem e à sociedade. Com tudo isso ocorrendo no curto período entre 1625 e 1650, houve urros e vaias por parte dos professores dee física aristotélica e dos religiosos antiquados, mas também uma larga aceitação do mecanicismo pelos intelectuais de vanguarda." ...

"Padres Gassendi e Mersene desenvolveram juntos uma teoria da 'nova ciência' como resultado construtivo de um completo ceticismo sobre a possibilidade de se obter conhecimento genuíno (isto é, necessariamente verdadeiro) a respeito da natureza da realidade. Usando dos argumentos de Sexto Empírico e dos céticos modernos como Sanches, Montaigne e Charron, defenderam que o homem não parecia possuir nenhum dado confiável, critério ou faculaddes para obter o conhecimento sobre o mundo real. No entanto, ao invés de produzir uma conclusão negativa e depressiva, eles insistiram em que se chegasse à conclusão de que podemos obter um tipo importante e útil de informação sobre o mundo das aparências. Podemos desenvolver uma ciência empírica independente de qualquer metafísica, que pode ser considerada como um sistema hipotético que descreve as sequências e relações encontradas no mundo dos fenômenos capaz de predizer sequências e relacionamentos futuros. Tal sistema pode ser útil e pode nos servir de guia para a vida, já que somos privados de qualquer conhecimento da realidade." ...
"O conhecimento religioso é recebido pela fé e pela revelação divina, e não está em aberto para o questionamento científico ou para a dúvida cética." ...
"Famoso por sua defesa de Aristóteles contra os modernos, o Padre René Rapin defendia o fato que, em física, nenhum conhecimento genuíno além de hipóteses e aparências é possível. Entretanto, ele considerou Aristóteles tão errado, nesta área, como qualquer outro metafísico. Mas Padre Gassendi, Bayle e ourtos cientistas foram considerados por Rapin estupendos por nos terem ensinado mais sobre o mundo dos fenômenos nos últimos sessenta anos que nos 1600 anteriores." ...

"Pascal mostrou que nenhum quantidade finita de provas jamais constituiria uma demostração suficiente de uma verdade a respeito da natureza, embora apenas um experimento crucial fosse capaz de refutar a teoria, caso se mostrasse existir uma dedução lógica a partir da teoria, dedução esta contrária ao fato. O máximo que se poderia fazer era encontrar a hipótese que melhor se aplicasse aos fatos conhecidos num dado estágio da história do mundo." ...

"Pascal ensina a fazer o melhor que se possa à luz do procedimento humano, seguindo um método limitado ao invés de um método geométrico ideal. Os termos devem ser definidos até que os mais claros possíveis tenham sido encontrados. Os princípios que são mais indubitáveis, consoante nossas crenças naturais, devem ser usados como ponto de partida. A partir daí, deve-se proceder cuidadosa e metodicamente e extrair as conclusões daquelas definições e princípios, percebendo o valor de verdade condicional daquilo que é assim demonstrado, já que sua certeza depende das capacidades e habilidades naturais do homem." ...

"Spinoza, em seu trabalho Tractatus Theologico-Politicus, provavelmente rascunhado em 1656/57, como uma resposta à sua expulsão, desafiava completamente a visão judaico-cristã do mundo. Spinoza desafiou a autoridade do Pentateuco por Moisés, a historicidade da bíblia, a possibilidade de existir milagres e assim por diante. De fato, Tractatus é quase uma inversão completa do argunmento apologético de Pascal no Pensées. Iniciando no Tractatus e tendo depois desenvolvido na Ética, Spinoza compôs uma concepção racionalista abrangente do mundo, no qual tudo, inclusive ou especialmente a visão judaico-cristã de mundo, pode ser entendido em termos de uma ciência mecanicisma e determinista. Spinoza elaborou uma metafísica na qual o judeu-cristianismo era somente um grande exemplo na história da estupidez humana a ser entendido, em termos de uma psicologia mecanicista, como um tipo de superstição devido ao medo. A nova ciência, para Spinoza, era uma forma de ver todo o mundo sub specie aeternitatis. Isto, entretanto, não tinha de ser conciliado ou harmonizado com a religião. Na verdade, a religião deveria ser por ela entendida e rejeitada como imagem séria do mundo. O critério racional da matemática deveria ser aplicado à religião e, então, seria observado que havia com mais certeza na ciência e na matemática do que na bíblia, e que a religião foi somente o resultado da natureza supersticiosa do homem que impediu a verdadeira e adequada compreensão do mundo. Portanto, Spinoza ofereceu uma base ontológica para uma guerra real entre ciência e teologia, mostrando a forma pela qual os dados religiosos poderiam ser examinado e julgados cientificamente." ...

"Questionava como uma pessoa poderia certificar-se do que exatamente diziam as Escrituras. Possuimos dela uma cópia fiél? Podemos, nos dias atuais, dizer o o que as palavras gregas e hebraicas realmente significavam nos tempos antigos? E, até mesmo, se os mais remotos textos conhecidos em grego e hebraico eram realmente a Palavra de Deus ou apenas a versão humana do que Deus disse?"...
"Segundo Padre Richard Simon (o maior estudioso da bíblia do século XVII), a bíblia, tal como a conhecemos, é uma compilação de trabalhos de escribas públicos de cerca de 800 a.C em diante, e que o texto que conhecemos é baseado em cópias de cópias, contendo todo o tipo de variante." ...
"O texto do Novo Testamento, argumentava Simon, encontra-se em estado ainda pior, já que Jesus mandou os Apóstolos irem e divulgarem a doutrina, e não sentar e escrevê-la. Por isso, o texto só foi escrito décadas mais tarde, numa linguagem diferente daquela falada por Jesus e seus Apóstolos. Este texto foi copiado e recopiado várias vezes e topo tipo de erros e variantes foi inserido." ...

"E no século XVIII que ocorre realmente uma luta, em todos os níveis, entre ciência e religião, quando a metafísica anti-sobrenaturalista de Spinoza é transformada num outro materialismo, as pesquisas bíblicas de Simon são transformadas num meio científico de desafiar todas as afirmações históricas baseadas no judeu-cristianismo e o ceticismo de Bayle é transformado numa forma de ridicularizar todos e quaisquer aspectos da religião. Os otimistas do Iluminismo poderiam agora afirmar que a aplicação da ciência newtoniana à religião já havia mostrado que a religião estava 'passée' e que tudo poderia ser entendido e resolvido cientificamente. Religião e moral poderiam agora se tornar objetos de estudos científicos sérios. A hipótese sobrenaturalista não era mais necessária e o homem poderia ser estudado como uma máquina." ...
"Os grupos religiosos dentro do catolicismo protestantismo que tanto fizeram para apoiar a 'nova ciência' no século XVII estavam agora face a face com um inimigo implacável, que haviam ajudado a gerar. Após o Iluminismo poder-se-ia dizer que pessoas respeitáveis e razoáveis estavam agora ilustradas demais para ter a inocente ignorância do simples crente ou a suposta sofisticação maliciosa dos líderes religiosos." ...

"As explicações científicas de Comte, Marx, Nietzche, Freud etc. sobre o lado religioso nos deram uma imagem elaborada do inimigo, sempre disposto a realizar trabalhos ainda mais diabólicos contra a humanidade, a não ser que os cientistas se mantivessem sempre em guarda. Como Dewey, Russel, Huxley retrataram a questão, os militantes religiosos lutavam para manter de pé seus bastiões. Nos séculos XVII e XVIII eles perderam para os cientistas o mundo físico e químico [uma perda do tamanho do universo]; no século XIX eles perderam o biológico; e agora no século XX estão perdendo o psicológico e o sociológico e, dessa forma, nada restará." ...

"Podemos nos ver muito bem na situação descrita por Pierre Bayle, no final do século XVII, de saber demais para sermos céticos e de menos para sermos dogmáticos. A luta, também, obviamente, nos custou nossa inocência." ...

 

(Popkin, R., "Ceticismo", Editora da UFF, Niterói RJ, 1996.) apud (Lakatos, I., Musgrave, A. "Problems in the Philosophy of Science", Amsterdan, Nort-Holland, 1968, p.1-39)